Transformação digital exigirá novas lideranças. O que se espera dos CIOs?

O dia a dia é complicado. Mas a pior decisão que um CIO pode tomar hoje, diante das transformações que estão ocorrendo, é omitir-se.

A transformação digital já é um fato. A amplitude e velocidade de seu impacto deixa atônitos muitos executivos, inclusive muitos CIOs ainda estejam reticentes. A principal questão que as empresas se defrontam é se estão preparadas, ou não. Na minha opinião, a maioria não está!

A transformação digital é uma importante jornada para a própria sobrevivência empresarial. Não é uma opção. As inovações e disrupções que vimos nos últimos dez anos são apenas aquecimento para o que veremos nos próximos dez. Ou seja, ainda não vimos nada…

Qualquer que seja o setor de indústria ou geografia, a transformação digital virá, mais cedo ou mais tarde. Nenhuma empesa passará ilesa por esta transformação. Já em 2011, Marc Andreessen escreveu um artigo fantástico no WSJ (“Why Software Is Eating The World”), que é uma leitura obrigatória para todos os executivos. Mostra claramente o que está acontecendo e o que está por vir.

O desafio é como enfrentar este novo mundo. Não é apenas uma questão de TI, mas de toda a organização. O patrocínio e a liderança da inspiração empresarial desta transformação é do CEO, com o CIO tendo o papel essencial de liderar o processo.

Cito aqui uma frase do CEO da Nike, Mark Parker: “We´re an innovation company. Innovation and design is at the epicenter of all we do”. E complementa “I always like to say that we focus on our potential and the distance between where we are and our potential, not the distance between us and our competition. That´s where a leader shoul be. And as you focus on that space, you´re gonna create some incredible things”. Vale a pena ver o vídeo desta entrevista, “Nike’s Just Getting Going: CEO Parker”.

Observem como alguns paradigmas são quebrados. Um deles é que a maioria das empresas fica olhando apenas para seus concorrentes como fonte de competição. Mas esta virá de fora do setor da sua indústria ou de startups. O Skype e o WhatsApp não nasceram de dentro da indústria de telecomunicações. O Airbnb não surgiu de nenhuma rede hoteleira. Bitcoin e a tecnologia blockchain não nasceram na indústria financeira. Uber não saiu dos taxistas. Amazon não nasceu no varejo…

Outro paradigma quebrado é que as empresas tendem a postergar transformações, geralmente alegando que é necessário antes “arrumar a casa”. “Neste novo mundo não é o peixe grande que come o peixe pequeno, é o peixe rápido que come o peixe lento”. A frase de Klaus Schwab, chairman do World Economic Forum, ajuda a quebrar esta alegação. Arrumar o que já se mostra obsoleto talvez não seja a coisa certa a fazer!

A pior decisão que um CIO pode tomar hoje, diante das transformações que estão ocorrendo, é omitir-se. O dia a dia é complicado, grande parte do esforço do setor de TI está dedicado a manter a continuidade das operações, mas é absolutamente essencial repensar a própria TI, seus papéis e responsabilidades diante da transformação digital.

Este ano participei de vários eventos com CIOs, e em um deles, dinâmicas com uma centena de executivos mostraram nuances muito interessantes. Primeiro, notei a tendência de, em certos momentos do debate, a discussão se voltava para o tradicional, ou seja, falar sobre os já conhecidos problemas de TI, como governança, necessidade de manter as operações em funcionamento, etc. Isto acontecia quando o debate falava de futuro, muitas vezes desconhecido e porque não, temeroso…

A questão é que é necessário olhar para a frente. E neste olhar não é suficiente “pensar fora da caixa”, porque este pensar ainda usa a caixa como referência. Uma empresa digital, e consequentemente uma TI digital, é um negócio diferente. Um exemplo: esqueçam projetos que durem meses ou anos. Estamos na época das entregas semanais ou diárias. Isso significa rever processos, métodos e práticas adotadas hoje. O próprio conceito de TI bimodal é temporário, pois o futuro vai exigir empresas sempre ágeis.

As empresas que nasceram no mundo da Internet não são bimodais. São ágeis em 100% dos casos. O modelo bimodal é um primeiro passo e deve ser dado o mais rápido possível. Mas recomendo que seja visto como um caminho e não o fim da jornada. Sugiro a leitura do artigo “Beyond agile: Reorganizing IT for faster software delivery”. Mostra claramente os resultados obtidos com DevOps e que me leva a indagar por que a grande maioria das organizações de TI ainda não o adotou? Creio que, em breve, os CEOs chamarão seus CIOs e perguntarão isso…

Observei também que a grande maioria das empresas já estava investindo em tecnologias como social media, mobilidade, analytics e cloud. Mas a maioria fazia ações isoladas e alguns falavam em “estratégia de cloud”, “estratégia de mobilidade” e “estratégia de analytics” como se fossem ações isoladas e independentes. Não são.

Cloud será a nova infra, mobilidade será é o meio de acesso à informação, social media reflete os hábitos da sociedade (seus clientes e funcionários) e analytics é a “killer application”. São parte integrante e indissolúveis da transformação digital e tentar desenhar estratégias isoladas para cada uma delas é o primeiro sintoma do insucesso à frente.

Para sair da inércia, recomendo a leitura do livro “Leading Digital – Turning Technology into Business Transformation”, de George Westerman, Didier Bonnet e Andrew McAfee. Mostra claramente o que são as empresas que os autores chamam de “digital masters” e o que as distingue das demais.

Leia o livro e faça um autodiagnóstico para identificar onde sua empresa está posicionada: beginners, conservatives, fashionistas ou digital masters. A conclusão que cheguei é que a maioria das empresas aqui no Brasil ainda está no que podemos chamar de “beginners”, tateando em seus esforços de fazer a transformação digital.

“Beginners” adotam tipicamente a atitude de que ainda é cedo para a transformação digital, e é melhor “esperar para ver”. Não são “early adopters” e acreditam que a transformação digital é importante, mas não para sua empresa ou sua indústria. Alguns escudam-se atrás dos compliance de regulação e privacidade para justificar sua inércia.

O que se espera dos CIOs? Antes de mais nada assumir postura proativa e serem mais contundentes e velozes na evangelização e liderança da transformação digital. O Brasil está inserido nas cadeias globais e a competição não é apenas com as empresas do seu setor ou de sua geografia. É global. O perfil profissional muda e a característica essencialmente técnica, de saber mexer em cabos e fios, dar boot em servidores, deixa de ser importante. Não é mais o papel do CIO. Ele agora deve ser um líder de negócios, par a par com os demais C-level da companhia.

A perspectiva e a missão da TI passam a ser outras. Não mais de suporte ao negócio, mas componente essencial do negócio. Toda e qualquer empresa será empresa de tecnologia, mesmo que não venda produtos de tecnologia. Amazon é uma empresa de tecnologia, Airbnb é uma empresa de tecnologia…

O ecossistema de fornecedores muda. O velho e arraigado hábito de recorrer sempre aos mesmos grandes fornecedores passa a dar lugar a olhar também startups que tendem naturalmente a serem mais criativas e inovadoras. As tradicionais empresas de tecnologia também estão lutando para se transformar e conseguir sobreviver no novo cenário digital. Um exemplo é a batalha que a IBM trava para se reinventar. Vale a pena ler “Crossing the Amazon: IBM in an Age of Disruption”. O mesmo acontece com as grandes e conhecidas consultorias. Vejam este instigante artigo “The Evolution of Business Consulting”.

O CIO passa também a ser mais inovador. Tem que olhar as tecnologias emergentes, não apenas como curiosidades, mas buscar constantemente identificar oportunidades de redefinição de mercados e criação de novos modelos de negócio. Não apenas ficar em stand-by, aguardando o que a empresa desenhou como estratégia. Afinal, tecnologia é parte integrante e indissociável de qualquer estratégia de negócios no mundo digital.

A transformação digital vai exigir novas lideranças. O fato de um CIO estar ocupando a cadeira hoje não é garantia que a ocupará no futuro. As regras ainda estão sendo definidas e estes são os riscos e oportunidades para os CIOs: omitir-se e desaparecer ou perder relevância, ou aproveitar a oportunidade de ser líder digital. Questão de escolha para seu futuro.

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